Convivência: voce suas relações sociais - Entrevista com Lia Diskin

21/09/2012 23:06

Convivência: voce suas relações sociais

Entrevista com Lia Diskin realizada por Alexandre Medeiras,

Olivia Ferreira e Pedra Garavaglia em 08/02/2012 na Palas Athena

Palas Athena

 

Lia Diskin

Jornalista com especialização em Crítica Literária pelo Instituto Superior de Periodismo José Hernandez, de Buenos Aires, a argentina Lia Diskin também estudou Filosofia na Índia. Coordenadora das visitas do Dalai Lama ao Brasil, ela é cofundadora da Associação Palas Athena, de São Paulo, criadora de inúmeros programas socioeducativos no Brasil eno exterior. Além disso, ela coordena o Comitê Paulista para a Década da Cultura de Paz - um programa

 da Unesco.

Talvez o século XX tenha sido o mais violento da história. Tivemos duas grandes guerras que devastaram a Europa, o apogeu da Guerra Fria e a proliferação dos arsenais nucleares. Mas ele chegou ao final com um sopro de esperança: em 1997, a Assembleia Geral da ONU declarou 2000 o Ano Internacional da Cultura de Paz. Como essa cultura de paz está sendo construída pelos países?

Lia Diskin - Sem dúvida, o século XXfoi o mais violento e cruel de toda a história humana, conforme mostra um estudo feito pelo The Washington Post sobre conflitos bélicos:

Do século I ao XVmorreram 4 milhões de pessoas por causa de guerras;

• No século XVI, 2 milhões;

• No século XVII,6 milhões;

• No século XVIII,7 milhões;

• No século XIX,19 milhões;

• No século XX,IIImilhões.

É preciso acrescentar que, nas guerras clássicas do passado, eram os soldados que enfrentavam as consequências dramáticas dos conflitos e, portanto, registravam maior número de baixas. No século XX,a situação se inverteu: a proporção de civis mortos passou a ser de dez civis para um soldado, alerta o Comitê Internacional da Cruz Vermelha. Desse modo, a questão da guerra e, por extensão, da violência deixa de ser algo que envolve apenas as forças armadas - ela abraça as sociedades como um todo. Eis a razão pela qual na década de 1950, após a Segunda Guerra Mundial, começam a proliferar os estudos sistemáticos sobre a Paz, as Ciências da Paz, que

adquirem visibilidade com o Programa de Ação da Cultura de Paz adotado pela Assembleia Geral das Nações Unidas, que delegou a Unesco a missão de disseminar e promover iniciativas

nesse campo.

 

É possível que a cultura da paz se espalhe nesse cenário de violência?

Lia Diskin - A última década tem sido emblemática no tocante às reflexões e políticas públicas voltadas a repensar o modelo com o qual percebemos, gerenciamos e criamos a realidade cotidiana dos nossos familiares e comunidades. Esse olhar mais aprofundado a partir da interdisciplinaridade, isto é, através da contribuição oferecida pelas Ciências Sociais, a Filosofia, os estudos de segurança humana e assuntos estratégicos, a diplomacia

e direitos humanos, permite observar uma dinâmica de transformação na qual Estado, empresas, igrejas, sindicatos, universidades e movimentos organizados da sociedade civil procuram trabalhar em conjunto para eliminar ou minimizar aquilo que perpetua e legitima a cultura da violência. Em muitos países, independentemente da orientação e mesmo do regime

de governo, podemos observar programas voltados para a erradicação da pobreza, redução das desigualdades, acesso à educação de qualidade e meios de vida condizentes com as necessidades básicas que assegurem dignidade e liberdade. O necessário é dar visibilidade a esses programas e ações para vencer a atmosfera de conformismo, resignação e indiferença

que paira sobre a sociedade contemporânea.

 

Qual a posição do Brasil diante desse esforço internacional pela paz?

Lia Oiskin - O Brasil é uma das referências mundiais na implementação de políticas públicas, cursos acadêmicos e projetos da sociedade civil no escopo da Cultura de Paz. Há uma extensa relação dessa construção no site do Comitê da Cultura de Paz (www.comitepaz.org.br). fruto de parceria da Associação Palas Athena e Unesco desde 1998. No nosso país foram criados conselhos estaduais e municipais de cultura de Paz, sediados em

assembleias legislativas e câmaras de vereadores de diferentes estados brasileiros. Alguns desses conselhos já aprovaram leis que condenam o bul/ying nas escolas e criam mecanismos pedagógicos para inviabilizá-lo, como em São José dos Campos (SP),e leis que proíbem a fabricação, importação e/ou comercialização de armas de brinquedo, sendo passível de multa oestabelecimento que as vender, como em Londrina (PR).

 

Como promover a cultura da paz no cotidiano, sobretudo diante dos interesses de vários

setores ligados à chamada "indústria da violência"?

Lia Diskin - Partindo do princípio de que a violência não é inerente ou constitutiva da natureza humana, mas sim uma possibilidade de ação que se escolhe como modalidade comportamental

e que se alimenta culturalmente. A violência não é uma fatalidade "incurável". Se pusermos o foco das políticas públicas e das mídias na criação de referenciais edificantes, seremos capazes de enfrentar de maneira teórica e prática as demandas naturais e necessidades não atendidas das comunidades, que nas últimas décadas estão adquirindo voz e capacidade de organizar suas reivindicações - porque estão agora se tornando conscientes de seus direitos. Assim como a violência, a paz tampouco é inerente ou constitutiva da natureza humana. Contudo, o avanço das ciências biológicas e das neurociências nos permite afirmar que o desenvolvimento físico/mental/ emocional/espiritual de uma criança depende em grande medida da qualidade dos vínculos afetivos da primeira infância. O neuropsiquiatra francês Boris Cyrulnik, que levou o conceito de resiliência para o campo da Psicologia, chega a conclusões que não deixam dúvida: "Para ser inteligente, a pessoa tem que ter sido amada". Ou seja, para que o potencial tenha vias de se expressar, criar e interagir, são necessários cenários de legitimação, segurança, respeito e atenção às necessidades básicas que, quando não atendidas, promovem indignidades que se traduzem em frustração, perda da auto estima, resignação e, muitas vezes, violências.

 

Os arsenais nucleares e a violência doméstica são faces visíveis da violência. Mas há formas veladas ou "invisíveis" que também são passíveis de denúncia e de reflexão? Um exemplo: o chefe que humilha um funcionáriono trabalho.

Lia Diskin - Muito importante o que você levanta. O senso comum entende por violência aquela que podemos "medir" - fratura de um braço, olho roxo, volume excessivo da voz, quebrar objetos, roubar pertences, ameaçar de espancamento ou com armas. Mas há outro repertório mais difícil de dimensionar e, consequentemente, de perceber como sendo violência e, portanto, inadmissível e que tem de ser objeto de denúncia para evitar sua reedição e proliferação. A escalada e o ciclo das violências se concretizam e retroalimentam em grande parte devido ao silêncio, à imobilidade do agredido ou mesmo à impossibilidade

deste de vencer o medo e exigir respeito. A passividade coopera com o abuso de poder e a violação de direitos. O sociólogo norueguês Johan Galtung, pioneiro na sistematização dos estudos sobre a Paz, fala de três tipos de violência: a direta, relacionada com a agressão que se recebe de outros através do corpo, da palavra, da intenção e que fere, machuca, viola, deprime. A estrutural. que procede das instituições sociais, políticas e econômicas que reprimem, exploram, impõem, excluem e marginalizam. E aquelas enraizadas na própria cultura, que legitimam e naturalizam comportamentos incabíveis e assimetrias nas dinâmicas relacionais.

 

Você costuma separar bem a ética e a moral. Enquanto a moral é herdada, a ética é construída. Pode explicar essa distinção e que papel tem a ética na construção de urna Cultura de Paz?

Lia Diskin -  Na minha avaliação não se pode falar em Cultura de Paz sem a presença da ética permeando todos os espaços, propostas, objetivos e agentes envolvidos. Como diria Gandhi: "Os meios estão no fim como as raízes na semente". A atualidade, na sua complexidade crescente, demanda observação e reflexão cuidadosas sobre as prioridades, os valores necessários para fazer frente ao etnocentrismo através do multiculturalismo; aos fundamentalismos ideológicos através de uma cidadania cosmopolita; ao consumismo e desperdício através de um sentido de reverência e admiração pela exuberância que nos oferece a vida neste planeta criativo. Penso que hoje se faz necessário conjugar uma cultura de solidariedade com uma ética da responsabilidade em que transparência, honestidade e confiança mútua possam ser o leme orientado r e mobilizador das relações pessoais, institucionais e comunitárias.

 

No mundo globalizado, de concorrência desenfreada e de forte individualismo, corno inspirar nos jovens valores corno confiança, respeito e honestidade?

Lia Diskin -  A interdependência é hoje muito mais evidente justamente por causa da globalização. As novas teorias biológicas sobre ecossistemas revelam uma arquitetura primorosa em que o equilíbrio é sustentado pela troca permanente entre os indivíduos/ espécies que o integram. Vida é relação, é pulsação e interação. Não há vida no isolamento, não há futuro sem participação. Pode ser incipiente, mas começamos a ver uma nova postura nas novas gerações: muitos deles escolhem a bicicleta como meio de transporte urbano; preferem passar as férias em uma tribo ou comunidade distante oferecendo seu tempo e conhecimentos em caráter voluntário; têm mais interesse em cuidar das suas famílias, ou em formá-Ias, do que em trabalhar desenfreadamente para fazer dinheiro e não ter tempo para acompanhar o desenvolvimento das suas crianças; têm uma consciência ecológica e informações sobre o meio ambiente muito mais acuradas do que uma geração atrás. Consequentemente há uma sensibilidade maior quanto à sobrevivência das outras espécies ...

 

Então há esperança se olharmos para o futuro?

Lia Diskin -  o individualismo da geração yuppie está ficando para trás e vemos um anseio sincero por parte dos mais jovens de se engajar em atividades colaborativas. de apoio e de solidariedade. Outro fenômeno interessante é o modo como se amealham e constroem as fortunas. não mais resultantes de extensões de terra. produtos. fábricas. ou objetos. Hoje a chave na construção das fortunas é justamente o conhecimento e a capacidade de criar novas maneiras de otimizar o já existente. Começa-se a falar das vantagens e acessibilidade aos bens em vez da propriedade dos mesmos. Exemplo disso é a proposta da prefeitura de Paris no uso de carros pequenos coletivos. como as bicicletas há anos na Dinamarca e outros países da Europa. Assim.

se vê que há uma mudança radical nas prioridades e. consequente mente. nos valores das gerações mais novas. Penso que o horizonte que estão apontando é promissor. Mas é preciso

tempo para saber se tudo isso gerará justiça social. Encurtará as desigualdades gritantes de oportunidades. se promoverá a generosidade e a solidariedade etc.

 

Episódios recentes mostram que a violência nas escolas é cada vez mais preocupante. Como lidar com esse tipode violência?

Lia Diskin -  O bullying não é um fenômeno recente. Elejá existia. mas não era percebido como prática degradante e intolerável. coisa que começamos a enxergar agora. Afim de compreender parte dos comportamentos desviantes dentro das gerações mais novas. é bom lembrar que a democratização dos relacionamentos interpessoais derrubou barreiras que eram constitutivas das

dinâmicas sociais de duas gerações atrás. O patriarcalismo. O autoritarismo e a intimidação do poder permeavam as dinâmicas familiares. sociais e educacionais. Os professores que hoje estão na faixa dos 50 anos de idade foram formados dentro de estruturas autoritárias em que dificilmente se questionava a "autoridade" dos superiores. Hoje. esses mesmos professores lidam. no seio de suas próprias familias. com filhos jovens ou adolescentes que os desafiam constantemente a pensar e repensar suas atitudes e comportamentos padronizados. Quando falamos de escola. temos que lembrar que ela continua sendo produto de uma visão de realidade originada no século XIX.onde os conteúdos se sucedem em um sistema escalonado que cria progressões de séries, que de tempos em tempos submete os alunos a testes, cujo grande propósito é simplesmente conferir se o educando tem capacidade de repetir aquilo que aprendeu, isto é, se existe uma memória ativa capaz de acumular uma grade curricular fixa e predeterminada em relação à dinâmica da vida. Não se constrói nem se recria conhecimento. Simplesmente se repete o já estabelecido. Obviamente, uma escola assim - num mundo conquistado pelo Facebook, Twitter, iPods, iPads e recursos do gênero – é de todo desinteressante. Não é de estranhar que esse desinteresse se transforme em frustração, e esta em agressividade.

 

E como lidar com isso?

Lia Diskin -  Para lidar com o bullying, entendo que existem dinâmicas pedagógicas muito interessantes, como, por exemplo, a formação de círculos restaurativos, onde todas as partes envolvidas podem voluntariamente externar seus sentimentos, suas necessidades não atendidas e suas demandas a respeito de como gostariam de ser tratados. A escuta qualificada por parte de

todos que integram o ambiente seguro do círculo, sem cair em acusações nem autojustificações, permite vivenciar as emoções tanto da vítima quanto do ofensor, com o intuito de que

este último assuma a responsabilidade por seus atos e compreenda a dimensão do sofrimento que provocou. Nem sempre é fácil a realização desses círculos restaurativos: às vezes, a vítima não cria coragem de denunciar o colega que o humilha. Tem receio de que isso faça escalar a violência. Outras vezes não consegue verbalizar aquilo que sente, por enrijecimento interno ou mesmo vergonha. Com referência ao ofensor, por vezes este minimiza a virulência de seus atos e termina culpando a própria vítima e evadindo sua responsabilidade. Às vezes ridiculariza todo o procedimento do círculo restaurativo ou se fecha num silêncio desafiador, mediante o qual é difícil avançar na proposta. Seja como for, esses encontros são altamente educativos para todos os integrantes do ambiente escolar envolvidos, porque observando e participando aprendem a se conhecer e a reconhecer nos outros fraquezas suas.

 

Em uma palestra recente em São Paulo, o Dalai Lama, de quem você é a "embaixadora" no Brasil, falou sobre a importância da educação para que tenhamos um mundo mais solidário. É esse o caminho?

Lia Diskin -  Sem dúvida. Em toda a minha formação escolar e acadêmica não recebi sequer uma aula a respeito de ecologia, termo que sequer fazia parte de nosso vocabulário. As questões ambientais e a necessidade de implementar políticas mundiais em caráter de urgência entraram no cenário de nossos interesses e preocupações a partir da década de 1980, quando começaram a

integrar os currículos escolares, e as crianças levaram para dentro das famílias conhecimentos e práticas que seus próprios pais desconheciam. Foi de fato na escola que germinaram os primeiros questionamentos sobre o uso dos recursos naturais e sobre o destino final dos desperdícios do lixo. Se partirmos da mesma lógica, entendo que, por meio da educação, de uma alfabetização emocional facada na empatia e na compaixão, podemos muito bem ter futuras gerações com um cabedal de conhecimentos a respeito das qualidades necessárias à sustentação dos relacionamentos, algo desconhecido por nós mesmos. Há um programa interessante, implementado no município de Araçatuba (SP), chamado Centramento, em que crianças do ensino fundamental. já a partir dos 6 anos, são capacitadas a reconhecer emoções por meio de exercícios de relaxamento e gestos, o que as torna hábeis no convívio pelo fato de também trabalharem dentro de si mesmas o reconhecimento das próprias emoções.

 

Aluta pela criação de um Estado palestino e o movimento pela independência do Tibete mostram que a intolerância e a falta de diálogo são dois obstáculos na busca da paz. Como superaresses obstáculos?

Lia Oiskin -  Os dois exemplos que você menciona exigiram uma reflexão muito mais demorada, e estão sendo parte dos estudos e questionamentos sobre política global e governança mundial. Nós temos muito mais nações do que Estados, que não chegam a 200. Também se começa a questionar hoje a questão da territorialidade ou as fronteiras como promotoras de identidade. Sem dúvida o diálogo e a tolerância como exercícios cotidianos nos tornariam muito mais competentes para resolver questões no plano diplomático. Mas igualmente nos tornariam

mais competentes para resolver de maneira edificante os conflitos com os quais nos deparamos ou envolvemos na miera política de nossas famílias, de nossos espaços de trabalho, de nosso bairro ou comunidade.

 

Há um pensamento de Nelson Mandela que você costuma citar: "Ninguém nasce odiando outra pessoa pela cor de sua pele, por sua origem ou por sua religião. Para odiar, as pessoas precisam aprender, e se podem aprender a odiar, podem ser ensinadas a amar". É possível desconstruir esse ódio, o preconceito e construir uma cultura de paz e de respeito às diferenças

Lia Diskin -  Sem dúvida. No âmbito do humano é possível articular tanto o lado luminoso quanto o sombrio. Um fato que se torna autoexplicativo, e que se repete em quase todos os estudos realizados em diferentes presídios no mundo todo, é que grande parte dos detentos apresenta um quadro de desenvolvimento infantil ou juvenil marcado por vinculações afetivas negativas ou simplesmente a ausência de vínculos. Sabemos que o abandono, a rejeição, os maus-tratos, a humilhação, o terror emocional reiterado simplesmente inviabilizam o desenvolvimento saudávelde qualquer organismo. O curioso é que, sabendo disto, há décadas os governos não envidam esforços em programas de capacitação e promoção da maternagem e da paternagem para as novas gerações. A responsabilidade pela educação de alguém que está absolutamente dependente dos cuidados de outros requer uma qualidade de atenção e de entrega muito especial. Não é suficiente que estejamos biologicamente habilitados para procriar. Esta é uma capacidade natural. Educar exige compromisso; requer aplicar os maiores e melhores talentos para possibilitar que o outro encontre vias de expressar seu potencial e seu propósito. Quanto às diferenças, penso que não é suficiente respeitá-Ias, é necessário promovê-Ias, e

não por outra razão senão pelo interesse próprio, visto que é a diversidade o que garante sustentação, renovação e permanência da vida. Do mesmo modo como qualquer ecossistema se torna tão mais rico e promissor quanto maior o número de espécies abrigue, na comunidade humana a diversidade é o que oferece garantias de criatividade e, portanto, de futuro.

 

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