Entrevista com Thereza Adrião: Propostas de valorização da Educação são inconsistentes

21/08/2010 13:25

Propostas de valorização da Educação são inconsistentes

Em entrevista para o Observatório da Educação,  Theresa Adrião, professora da Unicamp, pesquisadora do financiamento de políticas educacionais, analisa as propostas dos principais candidatos ao governo paulista. Confira:

 

Observatório da Educação - Qual a sua avaliação sobre os programas de governo dos candidatos a governador do Estado de São Paulo?

Theresa Adrião - Em linhas gerais, pois não tive ainda oportunidade de analisar com profundidade o que os partidos propõem, penso que há profundas diferenças. Para o PSDB, há uma indicação clara de manutenção das políticas em vigor e menções genéricas à valorização dos profissionais da educação enfatizando o investimento no ensino médio e técnico.

Na maioria deles encontram-se propostas de revisão das relações com os municípios, algumas de difícil consecução, como o proposto pelo candidato Alckimin em relação a parcerias para a integração do ensino médio e do ensino técnico, dado que esta é uma responsabilidade constitucional do governo estadual, ou ainda a proposta do PSB de criação de um programa para repasse de recursos aos municípios para atendimento à educação infantil, sem que se indique a ampliação de recursos.

Quase todos propõem medidas para a ampliação da jornada escolar. A informação que falta é que há necessidade de mais recursos e que, se não houver políticas de incentivo à criação de atividades efetivamente diversificadas e interessantes para os estudantes, a mera ampliação da jornada pouco contribuirá para a alteração dos quadros lastimáveis das escolas estaduais, especialmente triste no ensino médio.

Quais são as grandes ausências nas propostas de governo?

Theresa - Penso que a mais importante é a ausência de propostas de políticas que mantenham os professores estimulados a permanecerem na rede pública, sobre as quais há um relativo acordo e que passa necessariamente pela melhoria salarial e das condições de trabalho.

 

Neste sentido os candidatos do PSOL [Marcelo Búfalo] e do PT [Aloizio Mercadante] indicam objetivamente a redução da proporção no número de alunos/professor. Esta é uma demanda não tão recente e muito necessária. No entanto, penso que, no geral, há proposições genéricas sobre o que o governo eleito entende por "valorização do magistério".

A educação de jovens e adultos e o atendimento à educação especial aparecem em apenas dois programas e também genericamente abordados e pouco se enfatiza a importância do estímulo a fóruns democráticos e coletivos de decisão, seja na esfera do governo ou das escolas.

Observatório - E quais são os pontos positivos?

Theresa Adrião - A presença de propostas como a redução do número de alunos por sala e de investimento na ampliação de vagas nas universidades públicas. Também é válido ressaltar preocupações com a democratização dos processos decisórios, por meio da alteração e do incentivo ao funcionamento de instâncias colegiadas, explicitamente ao menos em dois projetos.

Pouco é falado sobre os Conselhos de Educação ou sobre o Conselho Estadual. Isso mostra uma falta de preocupação dos candidatos com a participação da sociedade nos rumos da educação?
Creio que sim, em alguns casos por desacreditarem na institucionalização das práticas democráticas e em outros por de fato prescindirem de tais práticas para governar.

Observatório - Investimentos e formas de financiamento também são pouco citados. Na sua avaliação, qual seria o motivo? 

Theresa Adrião - É muito difícil que os candidatos assumam a necessidade de ampliação de recursos, mas sabemos que sem a ampliação do investimento público, as propostas não se efetivarão e o sucateamento das escolas permanecerá.

Observatório - Apenas Celso Russomano e Aloizio Mercadante fizeram menção ao sistema de progressão continuada, ambos criticando. O que isso quer dizer?

Theresa Adrião - Falta de informação ou demagogia, pois o que é necessário fazer, em relação ao direito de acesso ao conhecimento, não é o retorno da reprovação e da culpabilização dos alunos, e sim a alteração das condições em que o ensino se realiza, ou não se realiza: menos alunos por turma; atividades diferenciadas e interessantes, incentivos para que as escolas elaborem seus projetos políticos pedagógicos (conforme indica a LDB [Lei de Diretrizes e Bases da Educação]) tendo em vista suas necessidades e peculiaridades, bilbliotecas, laboratórios, etc.
 

Observatório - Candidatos não falam - ou falam muito pouco - sobre Educação Infantil, EJA e Ensino Superior. Isso é compreensível?

Theresa Adrião - É compreensível, mas não aceitável, pois a educação básica pressupõe a articulação das diferentes etapas de escolaridade.

 

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