JE AKARA* (*Coma Akara) -

13/09/2010 18:58

 

JE AKARA* (*Coma Akara)

Elemoso Paulo César Pereira de Oliveira

Estudioso fala sobre o Acarajé, comida de origem africana e como a proibição do prefeito Kassab à venda de Acarajé contribui para o aumento da discriminação, em função da ignorância

 


 

Tudo começou há séculos atrás, entre os Yorùbás, na atual Nigéria, onde as mulheres circulavam pelas feiras que aconteciam em uma cidade diferente, em cada um dos 4 dias¹ da semana (Ojo Awo; Ojo Ogun; Ojo Jakuta e Ojo Obatalá), armando seus tabuleiros e comercializando seus quitutes, frutas e miudezas, o que lhes garantia independência financeira e o sustento do lar.

 

Esse costume ancestral, passado de mãe para filha chegou ao Brasil, nos corpos e nas mentes das mulheres yorubás para cá trazidas na condição de escravas. Assim surgiram desse lado do Atlântico as “negras de ganho”, que saiam pelas ruas vestidas com turbante, camisas rendadas, carregando seus tabuleiros cobertos por um tecido na cabeça, e instalavam-se numa calçada ou num canto da feira, em comum acordo com seus “senhores”, com os quais compartilhavam o ganho da venda dos quitutes: akasa, akara², cuscus, bolinhos, frutas da terra, etc. Com esta iniciativa muitas conseguiram reunir recursos para comprar a própria alforria, dos filhos e outros familiares.

Com a assinatura da Lei Áurea, e o processo de marginalização da população negra pós-abolição, esta herança ancestral, mais uma vez, garantiu a sobrevivência de muitas família negras, como ocorre até hoje, em várias partes do Brasil.

 

 

A preservação de determinados elementos da gastronomia africana no Brasil, muitas vezes se deu por serem comidas “votivas”, como é o caso do akara, alimento votivo da Orixá Oyá. Vem desse fato a intolerância religiosa, que leva muitos a se recusarem a comprar das baianas adeptas do Candomblé, procurando vendedoras evangélicas, inventando daí uns tais “acarajés de Cristo”. Na mesma linha, Kassab, o prefeito de São Paulo, foi definitivo. Proibiu!

 

Kassab está sendo coerente com a linha programática do DEM, que vem se posicionando, através das suas lideranças, frontalmente contra o povo negro, nossa história e nossa cultura. Só para lembrar alguns: o Senador Demóstenes Torres, do Estado de Goiás, é o líder principal da luta contra as ações afirmativas para a população negra no Congresso Nacional, inclusive protocolando uma ADIN (Ação Direta de Inconstitucionalidade), no Supremo Tribunal Federal; a prefeita Dárcy Vera, de Ribeirão Preto, quis proibir a citação de divindades africanas no samba-enredo da Escola de Samba Águia de Ouro, que homenageou a cidade no carnaval 2010.

 

E agora, o prefeito Kassab proíbe a venda de acarajé.

"Quando os missionários chegaram, os africanos tinham a terra e os missionários tinham a Bíblia. Eles nos ensinaram a rezar de olhos fechados. Quando nós os abrimos, eles tinham a terra e nós tínhamos a Bíblia." Jomo kenyatta


¹A semana no calendário yorùbá é dividida em apenas 4 dias;

 

²Akara (bola de fogo), hoje conhecido no Brasil como acarajé, por causa da junção de “akara”, com o verjo “Je” (comer). Como bem lembrou o Felipe, inspirado na discussão que tivemos no encontro dos Pontos de Cultura em Cananéia (Maio/2010), enquanto a pizza é considerada contribuição italiana, o sashimi é considerado contribuição japonesa, a gastronomia africana reproduzida no Brasil é considerada bahiana, a final os brasileiros não concebem a possibilidade da ´África ter contribuído com qualquer elemento para a cultura nacional.

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