Juventude: Ontem, Hoje... e Amanhã?

26/12/2013 20:39

Juventude: Ontem, Hoje... e Amanhã?

Cândida Martins Martinez*

 

 

Todas as vezes que quisermos entender um fato ou um fenômeno dos dias atuais, devemos fazer uma viagem ao passado, pois o hoje é o resultado do que ocorreu em tempos anteriores.

 

      Como nossa proposta é abordar o tema da juventude, é importante recordar que as preocupações da sociedade com os jovens começaram no século XIX, quando surgiu o reconhecimento social de um segmento que não era formado por crianças, mas por outros seres não plenamente adultos. Lembramos que, ao final do século XVIII, com a Revolução Industrial, crianças e jovens trabalhavam, junto com os adultos, em minas de carvão, na Inglaterra.

 

     A juventude é um produto da sociedade burguesa, da sociedade capitalista. Antes a juventude não existia; podia-se dizer que sempre houve jovens, porém juventude não; a juventude como fenômeno social, em termos ocidentais que hoje a compreendemos,  é um produto histórico. Deste modo, o reconhecimento deste segmento singular criou a cultura juvenil.

 

     No início do século XX, o mundo vivenciou o drama da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), quando houve um enorme desenvolvimento de armamentos (tanques de guerra e aviões). Quase ao final desse período, eclodiu a Revolução Russa (formando a União Soviética) que introduziu a ideologia comunista, opondo-se à ideologia capitalista.

 

     Na década de 30/40, novo conflito, a Segunda Grande Guerra (1939-1945), embate que resultou na morte de aproximadamente 70 milhões de pessoas.  Os jovens dessa época foram a primeira geração que crescia com a ameaça os artefatos nucleares de guerra (a bomba atômica). As ideologias nazista e fascista (regimes construídos com base em sentimento nacionalista) “fascinavam” grande parte da juventude. Porém, ao mesmo tempo, do outro lado do mundo, os jovens dos Estados Unidos, para escaparem da educação puritana do sistema familiar e escolar, dirigiram suas atenções para a música e a dança, impregnadas de sensualidade e indiferença moral, que determinaram o surgimento da uma crise de autoridade, abalando a atuação das figuras parentais.

 

     Os meios de comunicação (televisão e cinema) tiveram uma influência marcante, pois fizeram surgir o adolescente-consumidor. A escola se converteu em centro social, perdendo sua força educacional de aquisição de conhecimentos. Os jovens passaram a ser caracterizados por sua falta de compromisso político ou moral, conformação com a sociedade estabelecida, tornando-se descrentes, céticos. “A junção juventude- consumo, inaugurada nos Estados Unidos e rapidamente difundida por todo mundo, favoreceu o florescimento de uma cultura jovem altamente hedonista.” (Sergio Balardini)

 

     Esse período foi marcado pela influência do império norte-americano em várias áreas: econômica, política e cultural. Foi também dentro deste país, na década de 60, que surgiu o movimento hippie. Um movimento deflagrado por uma juventude rica e escolarizada, que se colocava contra todas as guerras (em pleno desenvolvimento da conflito do Vietnã e a Guerra Fria – esta, entre Estados Unidos e União Soviética).  A palavra de ordem deste movimento era “Faça o amor, não faça a guerra”. O jovens adotavam um modo de vida comunitário, tendendo a um estilo nômade e à vida em comunhão com a natureza. E foi nessa época que surgiu a tríade Sexo, Drogas e Rok’n’Roll.  Na realidade, essa “rebeldia” apenas aumentou o abismo entre jovens e adultos.

 

      Em maio de 1968 (mais referido como Maio de 68) uma greve geral estala na França. Alguns filósofos e historiadores afirmaram que essa rebelião foi o acontecimento revolucionário mais importante do século XX. Muitos viam os eventos como uma oportunidade para sacudir os valores da “velha sociedade”, contrapondo idéias avançadas sobre a educação, a sexualidade e o prazer. Mas o resultado final foi tímido. As estruturas de poder, político e econômico, permaneceram intocadas.

 

O historiador Eric Hobsbawm, em seus estudos, dividiu o século XX em três “eras: da catástrofe, marcada pelas duas grandes guerras. A segunda foram os anos dourados das décadas de 1950 e 1960 que, em sua paz congelada, viram a viabilização e a estabilização do capitalismo, responsável pela promoção de uma extraordinária expansão econômica e de profundas transformações sociais. Entre 1970 e 1991 deu-se o desmoronamento final, em que caem por terra os sistemas institucionais que previnem e limitam o barbarismo contemporâneo”.

 

      Hoje estamos em pleno século XXI. A ciência alcançou patamares, que eram inimagináveis há 50 anos. Estamos vivendo a época da globalização, sob a égide da Internet.  Crianças e jovens vivem grande parte do seu dia no mundo virtual, no qual o tempo adquiriu uma velocidade jamais encontrada em outras etapas da humanidade. Porém, o avanço da tecnologia não foi acompanhado pelo avanço do humanismo. Um fato é inegável: a evolução dos aspectos cognitivos e emocionais dos seres humanos não consegue apresentar a mesma velocidade da tecnologia.

 

     O mundo globalizado passou a fundamentar a vida unicamente nos aspectos econômicos, consumistas. Inaugurou assim um novo degrau no caminhar da humanidade, pois o consumismo pressupõe uma juventude alienada, longe dos valores e princípios que estão na base da convivência social, da solidariedade. “Se perguntarmos hoje a um jovem em que modelos se espelha, a resposta aponta figuras efêmeras e que baseiam sua vida no sucesso e no dinheiro.” (Rosana Massari).

 

      Neste ponto, precisamos abordar, especificamente, a família no desenrolar dos acontecimentos citados. Assim, vamos começar por entender qual foi a educação fundamentada no estilo antigo, “Aquele vivenciado pelos pais atuais. Era justo? Errado?  Isto não podemos dizer nunca com certeza, mas não podemos deixar de admitir a rigidez do método. Os jovens tinham apenas que escutar.” (Giuliana Passanti).

 

     Essa educação gerou adultos que, quando se tornaram pais e mães, passaram a adotar a educação liberal, imposta pelos interesses econômicos; mas que, ao mesmo tempo, concordam, pois dizem que não querem que seus filhos sofram o que eles sofreram com a educação repressiva.

 

     E quanto às demais instituições sociais?   Segundo Dermeval Corrêa de  Andrade, “Também perderam o “bonde da história”, quando da “troca de vetores” das principais instituições, então muito conservadoras como a família,  igreja e a própria educação, que não elaboraram as mudanças necessárias e deram um salto equivocado para o futuro.”

 

     Todos os acontecimentos mencionados concorreram para resultar numa geração de jovens, cujo perfil apresenta as seguintes características:

 

        • Desinteresse pelos estudos;

        • Apatia, depressão, passividade. Utilizando a expressão de Ingmar Bergman, podemos afirmar que os jovens se tornaram “analfabetos de emoções.” Assim, para enfrentarem este estado, recorrem às drogas, mesmo tendo toda informação quanto às graves consequências  físicas e mentais do seu uso;

          • A sexualidade é exercida de modo apenas fisiológico.  O “ficar” demonstra que até os relacionamentos afetivos adquiriram a velocidade dos tempos modernos: relações descartáveis, fluídas;

         • Perda da noção e valor do trabalho;

         • Sentindo-se impotente frente ao futuro (pessoal e profissional), muitos tomam atitudes onipotentes, opondo-se a quaisquer argumentos que se oponham aos seus. A consequência disto é a dificuldade para aprender, numa época que o conhecimento é confundido com quantidade de informações.

 

      Diante deste dramático quadro, como podemos interferir para que as próximas gerações possam ter um futuro melhor? Afirmamos que um dos aspectos mais importantes é a educação. Com as ideologias atuais, os jovens vivem num mundo paralelo, auto-centrado e o adulto/educador deve ter competência para adentrar nesse universo. É um erro estratégico tentar invadi-lo, isto só aumenta a resistência ao diálogo e às mudanças.

 

      Quando falamos em educação estamos nos referindo, principalmente, à educação social, que é a que se realiza em qualquer relacionamento (principalmente familiar e escolar). Lançando mão da Educação Social Transformadora, para que a intervenção no mundo dos jovens tenha sucesso, o passo inicial é a auto-análise que o adulto/educador precisa fazer. E o que deve ser avaliado? Muitos aspectos e atitudes: seus preconceitos e discriminações; sua postura diante dos eventos sociais que ocorrem no mundo; sua disposição para estudar e aprender; a qualidade das próprias atividades culturais; seu nível de solidariedade e generosidade.

 

Assim, a pergunta fundamental que o adulto deve fazer a si mesmos é: que referência  sou para as crianças e adolescentes com as quais convivo?

 

       E quanto à participação dos jovens nesta empreitada? Bem, é necessário contar com os que podem usar sua inteligência de modo responsável, pois o futuro também depende deles.

 

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Cândida Martins Martinez - Terapeuta da Práxis - CREFITO 352-TO, especialista em Educação  Social Transformadora, Psicologia da Ideologia e Comunicação Social. Autora do livro “Compreendendo o Autismo”. Tradutora (Espanhol, Inglês, Italiano). É membro da diretoria do Instituto Argumentos - Ciência e Cultura.

 

 

 

 

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