Organização brasileira realizará a primeira neutralização de carbono de uma escola no Chile

12/03/2012 13:46

Organização brasileira realizará a primeira

neutralização de carbono de uma escola no Chile

 

A OSCIP Prima, com sede em Niterói, foi escolhida para implantar a primeira escola neutra em carbono no Chile. e no Brasil  também foi a primeira organização a neutralizar as emissões de carbono de uma escola. Nesta entrevista publicada originalmente na RebiaRicardo Harduim que biólogo, professor e especialista em Ciências Ambientais, Tecnologia Educacional e Administração Escolar, fala sobre a questão. 

 

 

Foto: Conexão aluno

Por que neutralizar as emissões de carbono se o efeito estufa é um fenômeno natural e benéfico ao planeta, e graças a ele a vida pode surgir no Planeta?

Ricardo Harduim O planeta precisa de calor. A temperatura média da Terra gira em torno de 15ºC. Se não fossem alguns gases que naturalmente são produzidos, como o CO2 (gás carbônico) e o CH4 (metano), a Terra seria “gelada”, com temperatura média de 17 graus abaixo de zero e isso inviabilizaria a vida. O problema não é o calor necessário e sim o excesso. A velocidade que o homem emite gases do efeito estufa é assustadora desde a Revolução Industrial. Portanto, é importante atenuar os efeitos nocivos do aquecimento global compensando as emissões exageradas desses gases.

 

Por que plantar árvores neutraliza emissões de carbono? Substituir tecnologias que emitem muito por outras que emitem menos não seria melhor e reduziriam mais as emissões que o plantio de árvores?

Ricardo Harduim São ações complementares. A árvore tem a capacidade de incorporar o carbono do ar em sua biomassa por meio do processo fotossintético.  Quanto maior a velocidade de crescimento da árvore e da robustez do tronco, dos galhos, das raízes, da produção de folhas e serrapilheira, maior também é a agregação do carbono. Porém, há outras formas de mitigação e uma muito importante é a substituição da matriz energética. Há casos em que o consumo de óleo diesel para a geração de energia por um gerador é muito alto e esse combustível pode ser substituído por gás natural, por exemplo. Este último também é subproduto do petróleo, mas emite carbono em menor quantidade. 

 

Os lixões e algumas indústrias, por exemplo, emitem muito mais gases de efeito estufa que uma escola, então, por que a OSCIP Prima escolheu atuar na escola? Que diferencial existe na escola que justifique ela neutralizar suas emissões?

Ricardo Harduim A escola é uma importante célula responsável em formar a sociedade e ditar as regras de convivência. Não é a única, claro, porém, ali estão concentrados os que podem ensinar, os que devem aprender e os que sabem organizar. Todos estão, querendo ou não, comprometidos com o processo educacional, que vai muito além do ensino-aprendizagem. Um aluno que participa direta ou indiretamente de um projeto ecológico, terá chance de incorporar o sentimento de amor e respeito pelos seres vivos, pelas florestas, pela escola e pelo meio ambiente. 

 

Quais as vantagens para uma escola ser neutra em carbono?

Ricardo Harduim A maior vantagem é a escola poder afirmar o seu compromisso com o meio ambiente, com a contemporaneidade. Toda escola deveria ser ‘carbono zero’, pois ela é responsável em adequar o seu modelo educacional com as urgências socioambientais do seu entorno. A escola que cumpre a metodologia baseada no GHG Protocol e recebe o título de ‘neutra em carbono’, assume a liderança entre os seus pares e se enquadra na vanguarda ambientalista. Transforma-se num exemplo para os seus alunos e professores, assim como passa a ser motivo de orgulho da comunidade.

 

É muito caro ser uma escola neutra em carbono?

Ricardo Harduim O gasto maior talvez seja com o plantio. A aquisição das mudas, o transporte, o preparo do solo, os insumos, os funcionários para acompanharem o crescimento das plantas, etc.. Há gastos também com as atividades de Educação Ambiental, tais como palestras e cursos. Porém, qualquer escola, com um pouco de criatividade e algumas parcerias, consegue cumprir a metodologia e receber o título.

 

Como o projeto de neutralização de emissões de carbono na escola pode ser usado no processo pedagógico? Em todas as matérias do currículo ou apenas numa? Dentro ou fora de sala de aula?

Ricardo Harduim Em toda a Comunidade Escolar, ou seja, diretores, coordenadores pedagógicos, funcionários, fornecedores, vizinhos, alunos, pais e responsáveis. Todas as disciplinas podem e devem se envolver no processo educacional para a execução de um projeto socioambiental e isso não representa um trabalho a mais para o professor. Basta que ele planeje um ajuste didático no conteúdo e na sua forma de trabalho. Um professor de matemática pode sugerir o cálculo das emissões de carbono a partir do consumo de energia elétrica em quilowatts-hora. O professor de química trabalha as cadeias de hidrocarbonetos a partir da composição do butano, o gás de cozinha. O professor de física pode criar um aquecedor solar feito com garrafas PET. O professor de história pode orientar uma pesquisa sobre as transformações da paisagem natural ocorridas no bairro. O professor de Educação Artística pode exibir o documentário ‘Uma Verdade Inconveniente' e pedir um trabalho em equipe. O professor de Língua Portuguesa pode sugerir uma redação sobre o impacto das mudanças climáticas na região em que a escola está situada. O professor de Biologia pode se responsabilizar pela seleção das mudas de árvores nativas para a formação de um mosaico e formação de um futuro bosque. O professor de Geografia pode ajudar na identificação da área com estudo do solo, clima e pluviosidade. O professor de Educação Física pode comparar atividades realizadas num pátio descoberto com outra na sobra de algumas árvores próximas à escola. Os professores de Filosofia e Sociologia podem coordenar uma visita técnica a alguma instituição e colaborar na organização de painéis informativos pelos corredores das escola. E assim por diante.  

 

Que itens e valores são levados em conta no cálculo das emissões pelo título neutro em carbono numa escola?

Ricardo Harduim Basicamente, o consumo de gás de cozinha e energia elétrica, a geração de lixo orgânico e os gastos com transporte. Podemos também contabilizar o consumo de copos descartáveis e sobra de óleo das frituras, mesmo essas tendo diminuído significativamente nas escolas em função da oferta de uma alimentação mais saudável.

 

Uma escola não impacta o Planeta apenas emitindo carbono, mas também de outras maneiras, como através do desperdício de material escolar, merenda, energia, água, materiais recicláveis jogados no lixo, etc. A OSCIP Prima também pode ajudar as escolas que desejarem ir além e também implantarem uma gestão ambiental escolar que a tornem o exemplo de sustentabilidade que querem ver em seus alunos?

Ricardo Harduim Na verdade, esse é o melhor caminho. Planejar, de forma coletiva, um modelo de ajuste de conduta que consiste na construção de uma relação harmoniosa entre os membros da Comunidade Escolar e destes com os recursos naturais. O respeito à água, o consumo consciente e a ecoeficiência são parâmetros mínimos para a sociedade sustentável que buscamos.

 

Como a Escola pode ter certeza de que a OSCIP Prima está produzindo florestas reais e não apenas virtuais? Como as escolas podem acompanhar o plantio e o crescimento das árvores?

Ricardo Harduim Possuímos 5 áreas de parceiros para o plantio das mudas referentes a projetos de neutralização de carbono, sendo todas elas no estado do Rio de Janeiro. Temos também reflorestamento em Minas Gerais, Ceará, Paraná, São Paulo e Brasília. O mais adequado é montar os mutirões de plantio para que o aluno participe efetivamente do projeto contribuindo - na prática - com a natureza. Assim, ele fiscaliza o trabalho. Depois, não menos importante, é a garantia do crescimento das mudas. Cada árvore plantada tem um seguro de vida de 21 anos, quando são espécies da Mata Atlântica. O nosso acompanhamento é periódico e mais intenso nos primeiros meses pós-plantio. Cada área é georreferenciada e produzimos fotos para registrar o desenvolvimento das árvores e a seriedade do trabalho.

 

 

Qual é a base bibliográfica usada pela OSCIP Prima e que ela recomenda às escolas, professores e alunos para saber mais sobre este assunto e fundamentarem uma ação de educação e gestão ambiental na escola?

Ricardo Harduim Há vários bons autores e títulos: ‘O que é Educação Ambiental’ de Marcos Reigota; ‘Teoria Social e questão ambiental: pressupostos para uma práxis crítica em educação ambiental’ e outras publicações do Carlos Frederico Loureiro; ‘Educação ambiental: princípios e práticas’ de Genebaldo Freire Dias; artigos do Leonardo Boff, documentos sobre o projeto ‘Commodities Ambientais’ da economista Amyra El Khalili, excelentes textos do educador Rubem Alves e a própria Lei de 1999 que dispõe sobre a educação ambiental instituindo a Política Nacional de Educação Ambiental. Além disso, há ótimos filmes, revistas, blogs e sites (Ministério do Meio Ambiente, Portal do Meio Ambiente, etc.).

 

 

Qual a importância para o Brasil, em época de Rio +20, ter a primeira escola neutra em carbono do país como referência para países da América do Sul?

Ricardo Harduim O Brasil vem se destacando em vários setores em relação aos outros países. Na área ambiental há também avanços significativos, apesar de sérios equívocos como o caso da usina de Belo Monte, de Angra 3, da transposição do Rio São Francisco e do novo Código Florestal.  De toda forma, a imagem do Brasil é marcante em vários segmentos, inclusive o ambiental. Já recebemos 2 convites da Argentina e agora do Chile para replicarmos esse projeto lá. Essa transferência de metodologia é benéfica para a nossa imagem, principalmente no ano da Conferência Internacional Rio+20.

 

Como será a metodologia do projeto da primeira escola carbono zero no Chile?

Ricardo Harduim A primeira etapa consiste num Seminário de lançamento do Projeto, capacitação do corpo docente, seleção do local de plantio e visita ao viveiro de produção das mudas. A segunda ocorrerá por conta deles levantando os dados de emissão de GEE – Gases do Efeito Estufa, preparando o solo para o plantio, aclimatando as mudas e desenvolvendo atividades de Educação Ambiental preparatórias para o reflorestamento. Por fim, faço nova visita ao país para coordenar o mutirão de plantio, entregar o Certificado, descerrar a placa comemorativa e participar da solenidade de outorga do título ‘1ª escola chilena neutra em carbono’.

 

 

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