As mulheres e o Rabi de Nazaré

16/05/2011 19:57

As mulheres e o Rabi de Nazaré
 
 
 
Maria Clara Lucchetti Bingemer

Qual o segredo daquele homem para que exercesse tal atração sobre as mulheres? O que, nele, lhes chamava a atenção de forma que elas, ao encontrá-lo, mudavam radicalmente de vida e passavam a segui-lo por toda parte com ardor e paixão? Qual o segredo da sedução que sobre elas exercia a ponto de chamar a atenção de todos à sua volta e sua relação com elas destacar-se com indiscutível clareza ao longo de todos os quatro Evangelhos? Em um contexto patriarcal como era o seu, como aquelas mulheres –tantas– se atreveram a sair de seu anonimato, de seu confinamento na esfera do privado para ganhar a esfera pública, as estradas, ruas e caminhos, a fim de seguir o filho do carpinteiro fazedor de milagres e sedutor das multidões?

 

No mês de maio –mês das mães, das noivas, de Maria, da mulher, enfim– parece oportuno refletir e escrever sobre a mulher. E hoje nosso assunto é a relação da mulher com Jesus, o rabi de Nazaré.

Um olhar para os evangelhos pode levar-nos a vislumbrar um homem que viveu uma especial Aliança e sintonia com as mulheres de seu tempo, que fundou uma comunidade e inaugurou um estilo de vida onde elas eram bem-vindas e tinham seu lugar. O que nos é dado conhecer do Jesus histórico através dos relatos evangélicos o mostra como o iniciador de um movimento itinerante carismático, onde homens e mulheres são admitidos em relações de fraterna amizade.

Diferente do movimento de João Batista, com marcado acento sobre a ascese e a penitência, diferente também de Qumrân, onde só os homens são admitidos, o movimento que Jesus instaura se caracteriza -ademais da preocupação central da pregação do Reino como projeto histórico concreto- pela alegria, a participação sem preconceitos em festas e refeições às quais são admitidos pecadores e marginalizados em geral, e pela ruptura com uma série de tabus que caracterizavam a sociedade de seu tempo.

Dentre essas rupturas, certamente uma das mais evidentes é aquela que o extraordinário Rabi realiza em sua relação com a mulher. Sua prática com elas, situada em um contexto patriarcal se mostra não só inovadora, mas também chega a ser chocante. Apesar de não haver deixado nenhum ensinamento formal com respeito ao problema, a atitude de Jesus para com as mulheres é tão insólita que chega a surpreender até os mesmos discípulos (Jo 4,27).

É comum aos quatro evangelhos o fato de que as mulheres formam parte da assembleia do Reino convocada por Jesus, na qual não são simples componentes acidentais, mas ativas e participantes (Lc 10, 38-42) e ainda beneficiárias privilegiadas de seus milagres (cfr. Lc 8,2; Mc 1,29-31; Mc 5,25-34; Mc 7,24-30, etc.)

Em poucas palavras: Jesus confia nas mulheres. Não as teme como portadoras de tentação e perigosa sensualidade. Não se perturba em sua presença com a atitude arrogante e discriminadora de muitos profissionais da religião de seu tempo, que veem sempre na mulher um perigo a evitar e um demônio a exorcizar. Pelo contrário, as acolhe, ensina-lhes os segredos do seu coração, derrama sobre elas seu carinho que cura o corpo e a alma. E lhes confia uma missão, mesmo a mais importante, que é a de anunciar aos discípulos a boa nova da Ressurreição em primeira mão.

A revolucionária e inovadora maneira com que Jesus tratava as mulheres vem a ser, portanto, perfeitamente coerente com o Evangelho no que ele tem de mais essencial: a Boa Nova anunciada aos pobres libertos em prioridade por Jesus: os deserdados, os rejeitados, os pagãos, os pecadores e os marginalizados de toda sorte, entre os quais se incluem as mulheres e as crianças, não consideradas pela sociedade como importantes e válidos em termos de cidadania civil e religiosa. A todos estes, Jesus os faz destinatários privilegiados de seu Reino, integrando-os plenamente na comunidade de filhos de Deus, porque com seu olhar divino, informado constantemente pelos movimentos do Espírito e pela relação filial com o Pai, sabe discernir em todos estes pobres – nos quais está incluída a mulher – valores ignorados: "a vida preciosa do caniço pisoteado ou o fogo não extinto da mecha que ainda fumega."

Através dessas discípulas, dessas testemunhas, começou o grande movimento que dividiu a história em dois e configurou a cultura e a civilização de toda uma parte do mundo. A aliança das mulheres com o Mestre de Nazaré foi e continua sendo poderosa fonte de vida, e vida em abundância para todos.

[Maria Clara Bingemer é autora de "Deus amor: graça que habita em nós” (Editora Paulinas), entre outros livros.
Copyright 2011 – MARIA CLARA LUCCHETTI BINGEMER
Teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio 

É proibida a reprodução deste artigo em qualquer meio de comunicação, eletrônico ou impresso, sem autorização. Contato – MHPAL – Agência Literária (mhpal@terra.com.br)]

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