Índio na Selva Urbana

01/07/2010 19:35

Índio na Selva Urbana

Texto: Andrea Ermelin

Interpretação: Ewerton Matos

 

"Belíssima e comovente entrevista. O índio dentro da sociedade brasileira. As observações dentro do seu texto demonstram claramente o quanto grave pode vir a se tornar a situação deste jovem índio rejeitado pela tribo e rejeitado pelos chamados "brancos". Lembro perfeitamente deste fato. Conheci o índio ao seu lado. E se algum leitor conseguir encontrá-lo que lembre deste seu brilhante texto" Vera Mattos

 

 

 

 

 

Curumim Pakurara, 25 primaveras, é um índio da Tribo Pakura, localizada perto do Ceará. Vivendo há um ano nas ruas de Salvador, sobrevivendo com a produção e venda de suas peças artesanais, ele concedeu-me uma entrevista debaixo de uma árvore no Largo do Papagaio, localizado no Bairro da Ribeira, revelou um pouco da sua trajetória de vida.

 

Curumim Pakurará foi expulso da sua aldeia há um ano, carrega consigo uma mochila onde guarda todos os seus objetos de trabalho: pedras, alicates, fios, cordas. Para vestir-se, possui apenas uma bermuda, uma blusa e um chinelo. Alimenta-se de frutas, água e cachaça. Locomove-se com a ajuda de uma velha bicicleta que comprou num ferro velho.

 

Quando perguntado sobre o motivo pelo qual foi expulso, ele disse: “Matei um jacaré. Homem branco me viu matando um jacaré. Homem branco jogou o sangue do jacaré sobre o meu corpo. Quando cheguei na tribo com a cabeça do jacaré, viram o sangue em meu corpo, meu corpo estava impuro. Xamã faria nascer pelos no meu corpo. Nasceu pelos em meu rosto e minha tribo me expulsou por causa disso. Nunca mais verei meus pais”.

 

Logo após essa resposta, o olhar dele era um mar de lágrimas. Ele amava aquela tribo, sentia falta dos pais, mas o mundo estava pronto a engoli-lo. Dentro do olhar e no sorriso dele era perceptível enxergar pureza e muita ingenuidade.

 

Nesse final de semana, ele se prepara para viajar de bicicleta com destino à Argentina. Não estava só e sim, com um amigo, seu codnome era Maluco. Não se intitulava hippye. Maluco havia deixado para trás o sonho de montar uma banda de reggae e se entregou ao mundo das ruas por não encontrar outra perspectiva de liberdade.

 

Curumin acredita muito nas forças da natureza, gosta de abraçar árvores, conversar com Xamãs, cantar para Xamã. Curumim é um jovem brasileiro que tem fé no amanhã, que acredita no sexo apenas com amor, ele não entende ainda a cultura dos brancos. A idéia de concretizar um desejo sexual sem estar ligado ao afeto, o faz pensar que seria uma forma de enfraquecer-se espiritualmente. É um índio que não sabe ler, nem escrever português, se comunica com dificuldade, chora sem vergonha diante de uma mulher. Expressa seus sentimentos sem receio desta selva urbana que o rodeia.

 

Tardes de sábado como esta, não se repetem facilmente nesta paisagem urbana caótica. Infelzmente, mesmo com toda essa tecnologia disponibilizada pelo mundo, receio não encontrá-lo mais. Certos encontros são únicos e inesquecíveis.

 

É incrível e vergonho como em cinco séculos nosso país massacrou, destruiu grande parte da população indígena. E ainda hoje, lemos manchetes nos jornais como essa “Cinco jovens brasilienses de classe média queimaram com gasolina um índio que apenas dormia em um ponto de ônibus, levando-o à morte”

 

 

 

 

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