Pet shops também usam a vacina que mata

31/08/2010 16:02

 

Pet shops também usam a vacina que mata
 

Jornal da Tarde

Foto: google imagens


 

 

 

A mesma vacina antirrábica que causou pelo menos uma morte e provocou reações exageradas em 567 animais na capital é vendida para clínicas particulares e pet shops de várias partes do País. A informação é do Ministério da Saúde, que defende a continuidade da campanha nacional de imunização contra a raiva, doença que também pode ser transmitida ao homem. Por conta dos problemas de saúde causados em gatos e cachorros, as cidades paulistas suspenderam as campanhas gratuitas de vacinação, seguindo a recomendação da Secretaria Estadual da Saúde. Estão sendo investigadas mais dez mortes de animais vacinados.

A vacina antirrábica foi fabricada pelo laboratório Biovet, que defende a qualidade das doses que produziu. O outro laboratório que seria parceiro na produção da vacina afirmou não ter responsabilidade pelos lotes distribuídos.

A imunização que causou as reações adversas é chamada no meio veterinário de “não-ética”. Isso não tem a ver com a qualidade do produto – mas, sim, com o fato de ser vendida livremente em estabelecimentos que comercializam produtos animais. Já os medicamentos dos laboratórios estrangeiros são chamados de “éticos” porque só veterinários podem adquiri-los. Na prática, a diferença entre as vacinas está no melhor controle sobre o armazenamento do medicamento. Uma vacina contra a raiva na rede particular custa entre R$ 20 e R$ 40.

A veterinária Fulvia Perquim, do Espaço Zen Pet, no Campo Belo, zona sul, não trabalha com as vacinas da Biovet. “Mas já usei vacinas da Biovet e nunca tive problemas”. No Hospital Veterinário Senna Madureira, zona sul, a marca não é usada também. O estabelecimento trabalha com outros quatro laboratórios importados. Nos últimos dias, aumentaram em 20% as consultas de proprietários por telefone e e-mail com dúvidas sobre as vacinas. “Estamos orientando que os animais devem ser vacinados porque algumas doenças são muito graves. É uma questão de saúde pública”, diz o diretor clínico do hospital, Mario Marcondes.

No Hospital Veterinário Paes de Barros, na Mooca, zona leste, os donos de pets também têm ligado em busca de orientação. “São proprietários que vacinaram animais e estão preocupados, mesmo que os bichos não estejam apresentando sintomas”, diz a veterinária Thais Binotto. Em outras duas clínicas ouvidas pela reportagem a Biovet também não é comercializada.

O Ministério da Saúde recomenda que a campanha seja mantida no País. “Não há evidências até o momento de que os eventos adversos justifiquem a interrupção, pois os mesmos estão abaixo do relatado na literatura internacional e do produtor”. O fabricante aponta índice de mortalidade de 0,01% e um estudo realizado nos Estados Unidos evidenciou uma taxa de eventos graves de 0,445%. Somando todos os casos de São Paulo, Guarulhos e Rio de Janeiro, as ocorrências representaram 0,0029% dos 309.031 animais vacinados.

Idas e vindas
Uma semana depois de o primeiro município suspender a aplicação da vacina antirrábica em razão de reações adversas, o laboratório Biovet, pela primeira vez, confirmou nesta sexta-feira, 21, que forneceu “a maior parte dos lotes” adquiridos pelo Ministério da Saúde, que comprou 30,8 milhões de doses. O laboratório afirma que “tal fornecimento foi resultado do convênio de cooperação técnica entre o Instituto de Tecnologia do Paraná (Tecpar) e o Laboratório Biovet”.

O Tecpar divulgou comunicado que contradiz as informações do Biovet. Um trecho informa que “a entrega da vacina ao Ministério da Saúde foi assegurada com o fornecimento em 2010 pelo Biovet e, em 2011, será um produto já com a marca Tecpar/Biovet, em cronograma definido pelo Ministério da Saúde”. De acordo com a assessoria de imprensa do Tecpar, não havia vacina do instituto entre as vendidas para o ministério.

Durante toda a semana, o Tecpar afirmou que era o responsável pela produção das vacinas vendidas ao Ministério da Saúde. Declarou, inclusive, que cerca de 30% dos animais vacinados poderiam apresentar reações – e que a taxa de óbitos aceitável é de 0,01%. Ontem, porém, o instituto atribuiu ao Biovet toda produção. A única informação coincidente entre Tecpar e Biovet é que ambos têm uma cooperação técnica.
http://gazetaweb.globo.com/v2/noticias/texto_completo.php?c=211196